Ontem me deparei com uma edição de bolso das “Confissões” de Santo Agostinho e a adotei como companheira das minhas intermináveis viagens diárias do trabalho para casa. Na realidade, não tinha muito interesse por essa obra, mas por ser uma referência tanto para a Igreja quanto para a filosofia, achei que seria conveniente ao menos conhecê-la.

Esperava uma leitura árida, complexa, técnica, construída por considerações filosóficas e argumentos racionais sobre Deus, o bem, o mal e refutações a algumas heresias. O título de “Doutor da Igreja” me levava a um distanciamento quase intransponível deste santo e a fama da sua inteligência me intimidava e desanimava a conhecê-lo melhor.

Logo nos primeiros parágrafos afastaram-se todas as (más) impressões que tinha até então e todo medo de aproximar-me dele. Descobri não um intelectual hermético, mas um poeta, um ser humano, extremamente humano. Como não se identificar ao ler a descrição que faz da sua descoberta do mundo quando era bebê baseado na observação das crianças e nos relatos dos seus cuidadores?

“Pouco a pouco ia reconhecendo o lugar onde me encontrava, e queria manifestar meus desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não conseguia, porque eles estavam dentro de minha alma e elas estavam fora, e através de nenhuma percepção teriam podido penetrar no âmago de minha alma. E assim eu me debatia e gritava, exprimindo uns poucos sinais proporcionais aos meus desejos, como eu podia e de maneira inadequada. Se não me obedeciam, ou porque não me entendiam ou por medo de me fazerem mal, eu me indignava com essas pessoas grandes e insubmissas que, sendo livres, recusavam ser minhas escravas”. (Confissões, livro I, cáp 8).

Confesso que me agradou ver por essa perspectiva um habitante dos altares. Não como uma imagem pomposa a mirar algum ponto distante, como se o que acontece aqui na terra já não lhe dissesse respeito. Não mais uma estátua de gesso ou madeira ostentando os símbolos que representam sua doação a Deus e seus grandes feitos no mundo terreno que lhe renderam sua atual condição. Agradou-me enxergá-lo como um ser humano igual a mim, que um dia foi criança como eu e que passou pelas dificuldades e conflitos que vivi e que, em grande medida, ainda enfrento.

Creio que a peregrinação neste mundo consiste exatamente nesse processo de crescimento. Há algo dentro de nós que é maior que nós e desejamos ardentemente encontrá-lo. Somos como crianças neste mundo que expressam seus desejos de maneira inadequada e nos indignamos com Deus porque não atende aos nossos caprichos, que julgamos ser tudo o que precisamos para alcançar este “algo”.

A sede de encontrar a Deus, de alcançá-lo e defini-lo é uma característica marcante de Santo Agostinho. Reflete o anseio (ainda que inconsciente) dos homens de qualquer época em perder-se no oceano infinito do amor de Deus, de unir-se completamente a Ele, de imergir e entregar-se em uma comunhão plena.

O trecho abaixo mostra essa angústia de tentar explicar o inexplicável e definir o que está acima de qualquer definição. Diante da limitação humana e lingüística, Santo Agostinho recorre a figuras e desenvolve um texto profundo, cheio de poesia para revelar a busca de seu coração (extremamente) humano pelo único “algo” que pode lhe preencher, mas que ele não pode conter inteiramente.

“O que és, portanto, meu Deus? O que és, pergunto eu, senão o senhor meu Deus? “Quem, pois, senhor, senão o Senhor? Ou quem é deus, senão o nosso Deus”? Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordiosíssimo, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo e nunca antigo, tudo inovando, conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disso se apercebam, sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando, preenchendo e protegendo; criando, nutrindo e concluindo; buscando, ainda que nada te falte. Amas e não te apaixonas, tu és cioso, porém tranqüilo; tu te arrependes sem sofrer; entras em ira, mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com os lucros; não és avaro e exiges os juros; nós te damos em excesso, para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja tua? Pagas as dívidas, sempre sem que devas a ninguém , e perdoas o que é devido, sem nada perderes”. (Confissões, livro I, cáp 4)